Se Afogando em Mel
Entre um café e outro, um escitalopram e um serviço, o choque de realidade assola todos os passos da existência. Uma companheira fiel, amante da racionalidade e que se fortaleceu em diversos pensadores que eram limitados por sua época, mas que insistem em fazer sentido até hoje. Os pequenos prazeres, a música externalizando frustrações e alegrias é um dos sinais que ela se faz presente.
Nunca gostei de ser um pensador livre. Isso não me trouxe nenhum benefício além de dinheiro e de sacadas comerciais. A inteligência muitas vezes elogiada é uma maldição terrível, a qual eu tento ignorar e afogar, pois de fato muitas coisas que poderiam acontecer são passageiras e, embora pareçam maravilhosas, aumentam ainda mais o drama da totalidade.
Aprendi desde cedo a lidar com perdas e pessoas de todos os tipos, me retraindo em distrações, livros e uma porção de coisas que me arrancassem o sentimento de pertencer à humanidade. Que seres aguentariam uma existência curta, dramática e amaldiçoada pelo marketing com tão bom humor? Qual a droga do momento e a injeção química que é preciso para sorrir diante desse ciclo repetitivo?
Vejo meu vizinho com 90 anos, tirando um tesão inexplicável em devorar uma porção de salgadinhos com sua dentadura amarelada e imagino que neste período estarei esgotado. Quantas perdas ou vitórias é preciso enfrentar para devorar salgadinhos com tanta certeza?
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