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Tecnofeudalismo, Peitos & Zumbis

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A gente acorda, pega o celular antes de lavar o rosto e começa a capinar terreno alheio.

Cada clique, cada foto de prato frio, cada comentário irado em postagem de desconhecido é o tributo que a gente paga para continuar pisando no solo do senhor feudal.

O cara do Vale do Silício não quer te vender um produto. Isso era o capitalismo pós-escravidão antigo, simpático (ou que queria parecer simpático), que ainda precisava te convencer a comprar uma batedeira. Agora, o dono da plataforma quer a sua vida inteira em regime de comodato.

Ele te entrega a infraestrutura de graça.

Te dá o chat pra falar com a sua mãe, o mapa pra você não se perder no centro da cidade, o algoritmo que descobre a música que você nem sabia que queria ouvir.

Em troca, você entrega seu tempo, sua atenção e os seus dados. Não tem dinheiro trocando de mão na entrada, mas a comissão da sua existência é cobrada na saída, silenciosa, direto na fatura da sua saúde mental.

Dias atrás, após uma sexta caótica de trabalho, resolvi fazer uma das coisas mais deliciosas que existem. Peguei um livro "pocket", botei no bolso da jaqueta, e fui até um boteco. Sorvi aquela cerveja com um tesão desgraçado. Em questão de 45 minutos lendo, já no segundo chopp que o garçom me serviu, o lugar estava mais cheio. Me senti compelido a parar de ler, pois estava parecendo um estranho do caralho aos olhos do pessoal. Veja só, eu, lendo um livro completamente tranquilo, estava com medo de ser taxado de "performático" por outras pessoas.

É diabólico.

O mais curioso é que pessoas com os olhos cravados em celulares durante horas, ou praticamente com smartphones fazendo "parte inseparável" de seus corpos, não se sentem estranhos por fazer isso. Mas um cara lendo um livro, é performático.

No feudalismo clássico, o camponês ao menos olhava pro castelo no topo da colina, via as torres de pedra e sabia quem estava mandando nele. Tinha um rosto, uma coroa, uma espada. Hoje, o castelo é uma nuvem invisível e o barão da terra é um moleque de camiseta cinza que fala em impactar o mundo enquanto constrói um bunker no Havaí. A gente não odeia o senhor feudal. A gente atualiza a página pra ver se ele entregou mais alguma notificação vermelha. Ou se a nossa startup meia-bomba feita por IA vingou. Spoiler: ela não bombou. Você não é parte do clube do bolinha necessário.

O tal do marketing digital nada mais é do que aprender a pagar o pedágio certo pra que o dono da plataforma deixe a sua barraca de pastel ser vista por quem passa pela rua. Se você não paga, ele te esconde atrás da estrela da morte. Você vira fumaça.

A gente acha que é livre porque pode escolher se vai postar uma foto da moto ou um desabafo de madrugada. Mas o gado no pasto também tem a ilusão de que escolhe pra qual lado do morro vai caminhar antes do abate.

O pior nem é a exploração econômica.

O pior é a sensação de que a vida de verdade, aquela com cheiro de pão, sujeira de graxa na mão e café passado na hora, está sendo trocada por um punhado de pixels iluminados que nem pertencem a você.

Se o servidor do cara cair amanhã, dez anos das suas memórias viram nada.

Isso já era complicado quando houve a digitalização de fotos, mas agora você nem tem medo do seu HD ir pro pau. É o investimento mal feito, o ataque digital, ou o simples colapso do sistema todo que te perturba. O porquinho de gesso na gaveta da minha mesa ao menos é de gesso. Se eu quebrar, a moeda cai no chão.

Mas vai tentar sacar em espécie o tempo que você jogou fora rolando a tela sem rumo às duas da manhã.

E quando eu falo em trabalhar, você provavelmente imagina um trabalho de fato. Mas não. Certa vez, o dono da Meta informou que existem dois tipos de pessoas no mundo digital: as que estão ganhando dinheiro, e as que estão dando dinheiro pra alguém. Cada segundo que você passa fazendo um doom-scrolling são dólares entrando na conta de sujeitos que comercializam não apenas seu tesão pela vida, mas também seus dados e sua privacidade. E acredite se quiser: eles mesmos não ficam nem 10 minutos do dia deles nas redes sociais.

Até meus jogos, que eu amava pra caralho, agora estão só no digital.

O senhor feudal agradece a cota do dia, enquanto a gente dorme exausto de trabalhar de graça (e de certa forma, feliz) pra quem nunca nos viu na vida.

E, no fim das contas, tudo é performático aos olhos de quem tem como único hobby na vida ficar arrastando o dedo pra cima em um smartphone.

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